Publicidade
Botão de Assistente virtual
Notícias | Região Polícia

Região na rota da falsificação de cigarros e até trabalho escravo

Ações coordenadas da Polícia Federal e Receita incluíram Novo Hamburgo, Sapiranga e São Leopoldo

Por Alecs Dal'Ollmo
Publicado em: 20.10.2021 às 03:00

Operação desencadeada ontem na região atacou um esquema criminoso que inclui contrabando, fabricação clandestina de cigarros e até trabalho escravo. A ação faz parte de uma investigação que começou no ano passado.

Ação com 250 policiais federais e 60 servidores da Receita
Ação com 250 policiais federais e 60 servidores da Receita Foto: PF/Especial

A Operação Tavares foi deflagrada ontem, incluindo 40 mandados de prisão e 56 mandados de busca e apreensão no RS, Paraná e São Paulo. Mais de 300 pessoas foram mobilizadas, entre Polícia Federal (PF) e Receita Federal. Em Triunfo, foi desmontada uma fábrica clandestina.

Ontem foram apresentados detalhes na sede da PF, na capital. As autoridades descreveram este como um dos maiores esquemas de produção e distribuição de cigarros falsificados do RS.

"A operação desencadeada na manhã desta terça-feira, a partir de um esforço da elucidação de crimes, demonstrou que havia uma fabricação clandestina que operava em ciclos para comércio e contrabando. Ao longo da operação, achamos um depósito e partimos do pressuposto que era contrabando. Com os procedimentos, identificamos que o grupo elege um local para fabricação ao longo de seis a oito meses. No fim do prazo, eles dão uma pausa. E depois recomeçam em novo local, fragmentando as atividades e alterando a logística", destaca Wilson Klippel Cicognani Filho, delegado da Polícia Federal e responsável pela investigação.

Funcionamento

"É uma organização muito fragmentada. Cada integrante conhece uma parte do todo, para preservar a cadeia inteira do caminho do cigarro", explica o delegado.

Segundo ele, existe um local da fabricação, com o tabaco que vinha de Santa Cruz do Sul e Vera Cruz. Outros insumos, como papel filtro e caixa, viriam de São Paulo, mas há suspeitas de envolvimento também do Paraguai.

A carga seguia para um entreposto e depois era pulverizada em diversas cidades, abastecendo o RS e outros Estados, como Santa Catarina e Paraná, além do Uruguai. "Havia corrupção de menores, pois um dos principais membros da organização é um adolescente, de 17 anos."

As investigações também apontam que o esquema criminoso mantinha trabalhadores em condição análoga à de escravos. Ontem foram resgatados em Triunfo 17 paraguaios e um brasileiro.

Área verde

O trabalho de investigação envolveu várias cidades do RS, incluindo a Região Metropolitana e Vale, como São Leopoldo e Novo Hamburgo, entre outras, que abrigavam depósitos ou integrantes da organização criminosa. Em Sapiranga, conforme Cicognani Filho, uma área verde era utilizada para descartes, que eram enterrados. A Polícia Federal ainda está investigando a situação.

Conforme dados da operação, o cigarro dessa organização tinha uma contribuição de 50% no mercado ilegal do Estado. O potencial de produção era de 20 mil caixas por mês - algo em torno de 10 milhões de maços. Na lista, ainda, crimes contra o meio ambiente, além dos danos para a indústria nacional e para a Fazenda Pública.

A estimativa em todo o País, por sua vez, é de que o mercado ilegal de cigarro represente 50% do consumo.

Também participaram da coletiva da Operação Tavares Aldronei Antonio Pacheco Rodrigues, superintendente regional da Polícia Federal no RS; Cléo Matusiak Mazzotti, coordenador-geral de Polícia Fazendária da Polícia Federal; Luiz Bernardi, superintendente da Receita Federal no RS; e Francisco Velter, chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal no RS.

Apreensão de 20 mil caixas do produto

"Estamos com 20 mil caixas de cigarros apreendidas. O que representa R$ 50 milhões. E só isso, em tributos, representa R$ 30 milhões, sendo que essas fábricas circulam o produto do ilícito diariamente. Já faz um ano que estamos nessa parceria, fazendo apreensões esporádicas para justamente materializar essa operação. Estamos sempre atentos para os crimes. Às vezes demoramos um pouco porque demora para conseguir toda a materialidade. Mas cedo ou tarde acabam ocorrendo as operações como essa", destaca Velter. Para Mazzotti, a operação é um marco. "Ela desarticula uma organização criminosa de alto poder, que fabricava, trazia insumos e se capitalizava, cometendo uma grande quantidade de delitos. Essa é uma das maiores operações de combate ao contrabando e descaminho feitas no ano."

Os números da ação de ontem

Números ainda parciais da ação conjunta de ontem apontavam que houve 13 prisões em Canoas, sete em Triunfo, duas em Gravataí, duas em Sapiranga, uma em Novo Hamburgo, uma em Montenegro e uma em Portão. Na região, houve buscas também em São Leopoldo, Parobé, Estância Velha e Cachoeirinha. Além da apreensão de cigarros, foram recolhidos R$ 2,37 milhões e US$ 260 mil em espécie.

Problema no descarte

Para Rodrigues, esse tipo de ação é importante. "Desarticulamos uma grande organização criminosa, que utiliza máquinas da grande indústria, que são descartadas e não são destruídas." A PF irá apurar essa situação de como essas máquinas vão parar nas mãos de criminosos. Para ele, é necessário mais cautela no descarte. E são máquinas sem placas de numeração. Difíceis de rastrear. Integrantes da PF e Receita afastaram qualquer possibilidade de envolvimento das grandes indústrias do setor. Reforçaram que, de tempos em tempos, a indústria tabagista renova seu parque tecnológico. Algo normal. E as máquinas velhas são descartadas como peso de ferro, como sucata. Não há ilegalidade nesse processo. Mas algumas máquinas velhas estão parando nas mãos dos criminosos, alimentando a cadeia, como a atacada pela Operação Tavares.

Mobilização

Participam da ação 250 policiais federais e 60 servidores da Receita Federal. A Operação contou ainda com apoio da Brigada Militar e foi acompanhada pelo Ministério Público Federal, Ministério Público do Trabalho e por servidores do Ministério do Trabalho e Previdência Social. A operação foi denominada Tavares em alusão ao local onde foi identificado o primeiro depósito do grupo, no município de Cachoeirinha.

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.