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Pai de Henry Borel lembra últimas frases do filho: 'mamãe não é mamãe boa'

De acordo com a denúncia, menino de 4 anos foi vítima das torturas realizadas pelo padrasto, o ex-vereador Jairo Souza dos Santos Júnior

Publicado em: 07.10.2021 às 07:40 Última atualização: 07.10.2021 às 07:46

Na primeira audiência de instrução e julgamento do caso Henry Borel, menino que foi morto aos 4 anos, o pai da vítima, Leniel Borel, lembrou dos últimos momentos do filho. Os depoimentos começaram na quarta-feira (6), na 2ª Vara Criminal da Capital do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. 

Primeira audiência do julgamento do caso Henry Borel
Primeira audiência do julgamento do caso Henry Borel Foto: Bruno Dantas/TJRJ

Leniel relatou que mantinha um bom relacionamento com a ex-mulher até o surgimento de Jairinho e retratou seu filho como uma criança “maravilhosa, dócil, amorosa, o filho que toda mãe queria ter”. Afirmou que seus pais se separaram quando ele tinha a idade do Henry e que se preocupava em se manter presente na vida do filho. Ele contou ainda que, mais de uma vez, Henry teria relatado que o “tio”, como se referia a Jairinho, o teria machucado, mas que, ao questionar Monique sobre o assunto, ela sempre negou que o filho fosse vítima de maus-tratos. “Toda vez que eu pegava meu filho, verificava se ele tinha alguma marca ou escoriação”, contou.

Leniel também relatou que Henry sempre demonstrava resistência em retornar à casa da mãe, comportamento que ele atribuía às mudanças recentes na vida do menino, como a separação, a alteração de endereço e a nova escola. Muito emocionado, Leniel chorou ao contar sobre o último registro de vídeo que fez do filho, cantando a música religiosa “Mãezinha do Céu”.

Ele Lembrou que Henry ficou muito nervoso e vomitou na sua volta para casa no dia anterior à sua morte e que teria dito na frente de Monique que “mamãe não é mamãe boa”. “Foi a última vez que vi meu filho vivo”, lamentou, dizendo que só teve certeza de que teria se tratado de uma morte violenta após o laudo preliminar do Instituto Médico Legal (IML) de hemorragia interna por ação contundente.

O pai do menino disse ainda ter sofrido ameaças indiretas que acredita ser por parte de Jairinho e que foi procurado por ex-companheiras dele que relataram que seus filhos também sofreram agressões do ex-vereador, assim como Henry.

Disse que Monique era ambiciosa e que hoje ele faz tratamento psicológico e psiquiátrico e vive à base de remédios. “Meu filho estava sendo criado para fazer a diferença nessa sociedade. Poderia ser um novo Einstein, um criador de vacina”, afirmou, dizendo que a última vez em que falou com Monique foi no enterro do menino.

Monique e Jairinho

Filho da professora Monique Medeiros e enteado do ex-vereador Jairo Souza dos Santos Júnior, o Dr. Jairinho, o garoto de quatro anos de idade morreu no dia 8 de março e, de acordo com a denúncia, foi vítima das torturas realizadas pelo padrasto no apartamento do casal, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.

Trazida do presídio em Niterói, a professora acompanhou os depoimentos sentada no banco dos réus. Já o ex-vereador Jairo Souza dos Santos Júnior, o Dr. Jairinho, por medida de segurança, participou de forma remota por videoconferência a partir do Presídio Petrolino Werling de Oliveira, conhecido como Bangu 8.

Presos desde abril, eles foram denunciados pelo Ministério Público pela prática de homicídio qualificado (por motivo torpe, com recurso que dificultou a defesa da vítima e impingiu intenso sofrimento, além de ter sido praticado contra menor de 14 anos), tortura, coação de testemunha, fraude processual e falsidade ideológica.

 

Outro depoimentos

Primeiro a ser ouvido de um total de 12 testemunhas de acusação arroladas, o delegado Edson Henrique Damasceno, responsável pela investigação, ratificou, num depoimento de quase quatro horas, as conclusões do inquérito. Segundo ele, o caso chegou à 16ª Delegacia de Polícia como acidente doméstico. Mais tarde, porém, o laudo do Instituto Médico Legal mostrou que Henry apresentava inúmeros sinais de agressão e a perícia constatou que o apartamento havia sido limpo.

Ainda segundo o delegado, ao prestarem depoimento nove dias depois do crime, Monique e Jairinho se mostraram tranquilos. As versões apresentadas pelo casal eram coerentes, mas o comportamento atípico com a situação chamou a atenção. “Ela tirou uma ‘selfie’, pediram pizza e até fizeram brincadeiras”, disse Henrique Damasceno. Na ocasião, a babá e a empregada também foram ouvidas e confirmaram a versão de que a relação na casa era harmoniosa.

As evidências do crime, no entanto, vieram a partir do primeiro laudo do telefone de Monique. Um print da conversa entre ela e a babá, no dia 12 de fevereiro, mostra um relato de uma agressão do então vereador ao menino enquanto a mãe estava em um salão de cabeleireiro. A babá foi novamente chamada a depor e confirmou a veracidade das mensagens. Ainda segundo os laudos juntados aos autos no curso da investigação, Henry sofreu 23 lesões por ação violenta no dia 8 de março.

“Ficou evidente que houve uma rotina de agressões ao menino e que, mesmo depois da morte, Monique apresentou uma versão absolutamente compatível com a de Dr. Jairinho. Ela soube da agressão e não fez nada, mentiu na delegacia e mentiu no hospital”, disse.

O depoimento do policial tomou toda a parte da manhã da audiência e, em determinado momento, gerou atrito entre o promotor Fábio Vieira e o advogado de Monique Medeiros, Thiago Minagé, obrigando a juíza a alertar as partes sobre a necessidade da manutenção do rito da audiência.

 

Segunda testemunha a ser ouvida pela juíza Elizabeth Louro, a delegada auxiliar da 16ª DP Ana Carolina de Caldas afirmou que a ré Monique, mãe do menino, teria ciência da rotina de violência que Henry sofria e não o afastou desta situação, que tanto ela quanto seu namorado Jairinho, também réu na ação, mentiram no inquérito policial e que a criança já teria chegado morta ao hospital.

Ela destacou ainda que as agressões a Henry teriam começado pelo menos a partir do dia 2 de fevereiro e que as reiteradas agressões físicas e psicológicas teriam ficado comprovadas, além de que a babá teria ocultado os fatos por ter sofrido ameaça velada.

Em seguida, foi a vez de o policial civil Rodrigo Melo, que participou das oitivas e diligências do caso, dar o seu depoimento. Ele afirmou que as câmeras de segurança verificadas mostraram que não houve nenhum tipo de acidente com Henry no período em que esteve com o pai em um shopping antes de ser entregue a Monique, reforçou que o laudo pericial demonstrou que o menino teve uma morte violenta e que, no dia do ocorrido, quando a perícia esteve no apartamento em que a criança foi morta, o imóvel já havia sido limpo.

Dinâmica da audiência

Após intervalo e antes da retomada dos depoimentos, a juíza Elizabeth Machado Louro explicou em plenário que a dinâmica da audiência de instrução e julgamento dos acusados pela morte do menino Henry Borel é própria.

“Aqui a gente não pode deixar que as partes comecem a adiantar mérito e fazer encadeamento de provas. Aqui são só perguntas e respostas. O que não é a dinâmica de CPI e nem tem que ser”, destacou a magistrada.

O esclarecimento foi feito após um mal-entendido em relação a intervenção que fez para conter a discussão entre representantes da acusação e da defesa. O atrito interrompeu o depoimento de uma testemunha do caso. Ao preservar a autoridade sobre a audiência, a magistrada disse que a dinâmica ali não era de CPI e que não permitiria que a oitiva se transformasse em um circo.

“Acho que houve um mal-entendido. Sou uma entusiasta da CPI e respeito muito os parlamentares. Não tenho nenhuma razão para ofender qualquer membro da CPI. Acho que houve um mal-entendido. No calor de chamar a atenção das partes, eu não fui clara e acabei unindo um vocábulo ao outro”, disse.

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