Publicidade
Opinião Opinião

O Index vem aí!

Por Gilson Luis Cunha
Última atualização: 29.06.2020 às 15:16

Não basta o planeta estar sendo assolado pela Covid-19, nem a crise econômica que varre o mundo, acompanhada de consequências sociais e sanitárias. Até nuvens de gafanhotos resolveram aparecer, para tornar o cenário mais sombrio. Mas não duvidem, há um desejo secreto, uma “pulsão da morte”, como diria Freud por parte de alguns que insistem em morrer e levar o maior número de pessoas junto com eles.

Esqueçam o homem-bomba. Ele só pode matar algumas dezenas ou centenas de pessoas. Os novos homens e mulheres bombas não explodem corpos. Explodem a cultura, a história e a civilização. Eles são uma geração inútil e mimada, a mesma que cospe em seus avós veteranos da segunda guerra mundial que lutaram contra Hitler, e que ainda os chama de nazistas. Eles são os SJW (Social Justice Warriors), os justiceiros sociais, os sinalizadores de virtude.

Eles querem retirar os clássicos da literatura, do cinema e de outras mídias do alcance de todos. Querem, “proteger a sociedade de si mesma”, através da censura de obras consagradas pelo público e/ou sua mutilação. O serviço de streaming da HBO retirou de sua grade E O Vento Levou, sob a alegação de que é uma obra racista e insensível com o passado da comunidade afro-americana, para depois, sob muitos protestos, colocá-lo de volta com uma advertência. Eis a questão. Se querem higienizar o passado, a ponto de negá-lo, o que há para ser combatido? Todos sabem que a aristocracia escravagista do sul dos Estados Unidos, era racista, bem como boa parte dos nortistas que lutavam pela abolição. Então, qual é a lição que fica? 

Pessoalmente, não gosto do filme. Eu o acho aborrecido. Mas nem por isso sou a favor do seu banimento para o limbo.

Em outro movimento, o serviço de streaming Sky internacional resolveu classificar filmes antigos que podem “ferir” sensibilidades, sem o menor critério. Um destes, vejam só, é Aliens, O Resgate, um dos primeiros megassucessos de Hollywood a ser protagonizado por uma heroína de ação, a tenente Ellen Ripley (Seagourney Weaver). O filme foi classificado como tendo “atitudes antiquadas e linguagem perturbadora”. Sério? Um filme que mostra uma heroína “empoderada” muito antes de isso ser uma modinha a ser cooptada pelas hordas ignorantes da polícia do pensamento e da política identitária? Será que é porque ela luta como uma fera para proteger uma menininha de virar refeição de xenomorfos? Será que essa atitude “excessivamente maternal” não combina com a mulher moderna e independente do século XXI? Na mesma semana a revista Variety listou “dez filmes problemáticos que poderiam usar rótulos de advertência”. Entre esses filmes, Forrest Gump, a obra-prima de Robert Zemekis, foi citado pelo articulista da revista ao fato de o protagonista ter recebido seu nome em “homenagem” ao primeiro grande líder da Ku Klux Klan. Será que esse sujeito viu o filme inteiro? Se tivesse assistido, saberia que foi um deboche com os racistas, uma grande piada, citada pelo próprio Forrest: “minha mãe me deu esse nome para eu me lembrar de que às vezes as pessoas fazem coisas estúpidas sem o menor sentido”. 

Também teria visto que o melhor amigo de Forrest, Bubba, é um negro do sul dos Estados Unidos, morto em combate no Vietnã, cuja família recebe do protagonista todo o lucro de sua milionária empresa de pesca de camarão.

O filme também é acusado de ser “hostil a manifestantes e à contra-cultura”, como se o movimento hippie fosse alguma manifestação de bondade divina na Terra e precisasse de 100% de aprovação. Afinal, se é “contra o sistema”, só pode ser coisa boa, né? Algo na mesma lógica de “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”. Alguém devia lembrar esse “jênio” de que para cada John Lennon ou Steve Jobs que flertou com “la vida loca” e se deu muito bem, há milhares que acabaram nas ruas, doentes mentais, viciados em drogas, indigentes, abandonados à própria sorte. Além disso, o próprio filme mostra um policial, em teoria um representante do estado, tentando sabotar o sistema de som de um comício contra a guerra. A lista prossegue, com um viés tão tosco e mal disfarçado, que chega a dar vergonha alheia. Sobre Era Uma Vez Em Hollywod, ele diz: “Trata-se de dois homens brancos de meia-idade que anseiam pelos velhos tempos em Hollywood; em outras palavras, MHGA (Make Hollywood Great Again)”, numa alusão ao slogan de Donald Trump. Detalhe: o filme se passa em 1970, quando Trump sequer sonhava em entrar na política. Como senão bastasse, a sequência final mostra membros da gangue de Charles Manson, um nótorio maníaco e supremacista branco, levando uma das mais inesquecíveis tundas de laço da história do cinema.

O tal artigo é apenas uma entre milhares de iniciativas da mídia chapa branca de destruir o passado e recriá-lo segundo sua imagem e semelhança. O objetivo é a reengenharia social através da cultura popular.

Sempre houve obras que retratavam um mundo racista, machista, homofóbico, etc. Muitas delas eram realmente engajadas nessa estupidez. Mas sempre houve aquelas que se ocuparam apenas em retratar o mundo com ele era, no tempo em que foram feitas. Não se engane. A liderança desses movimentos tem um plano: A hegemonia, o silenciamento do pensamento divergente. Com seus produtos sinalizando virtudes eles serão imbatíveis, certo? ERRADO. Não basta criar um filme cheio de diversidade e inclusão se os personagens que você queria enaltecer são retratados como imbecis que parecem estar ali apenas para cumprir cota. Quer um exemplo? Finn, o storm trooper da primeira ordem na desastrada trilogia de “Star Wars” da Disney. Quando as primeiras imagens do personagem, vivido pelo ator negro John Boyega, surgiram no trailer de O Despertar da Força, muitos racistas se manifestaram contra, sim. Mas uma imensa maioria de fãs de todas as etnias, entre eles este que vos escreve, vibrou. “Esse cara é um soldado do mal que ouviu o chamado da força e agora se tornará um jedi. Uau!” Foi o que pensei. Não sou um jovem negro na casa dos vinte anos e não precisei ser um para torcer pelo personagem, do mesmo modo que não preciso ser uma menina ruiva de doze anos para torcer pela protagonista da série Anne Com E, da Netflix, por exemplo. Quanto a Finn, eu imaginei que ele se tornaria lendário, ajudando a resistência a vencer e sendo lembrado como um herói.

Mas, no final, seu personagem nunca evoluiu. Virou uma mera escada para que Rey (Daisy Ridley), uma mulher branca, pudesse brilhar como a maior e mais poderosa jedi de todas as trilogias, sem nunca ter sido treinada nos caminhos da força.

 Pior de tudo. Nos filmes antigos, dos anos 30, negros eram, em geral, mostrados em papéis servis. Ironicamente, com Finn não foi diferente. Mesmo com toda a proposta “progressista, diversa e inclusiva”, ele era um storm tropper que nunca entrou em combate. Ele era, na verdade, encarregado da manutenção dos sistemas sanitários e limpeza da base da primeira ordem, ou seja, um faxineiro high-tech, que desertou para o lado dos mocinhos para virar alívio cômico enquanto uma mulher branca se tornava o foco de todas as atenções, com um roteiro muito mal escrito, diga-se de passagem. O que podemos concluir disso? De que existe uma hierarquia entre os oprimidos? Que as mulheres, mesmo brancas e, como tal “privilegiadas”, merecem mais espaço e valorização que homens negros? Difícil saber, uma vez que a histeria identitária sempre conduz ao canibalismo, já que ninguém é bom o bastante, justo o bastante, tolerante o bastante. Até lembra a Alemanha sob Hitler, na qual ninguém era “ariano o bastante” ou a União Soviética de Stálin, na qual ninguém era “revolucionário o bastante”.

Um exemplo desse canibalismo dos movimentos identitários se tornou evidente na semana que passou: Jimmy Kimmel, apresentador de Jimmy Kimmel Live! Um talk show da emissora ABC nos Estados Unidos foi “cancelado” pela própria turba que ele alimentava, depois que imagens e textos dele fazendo “Black face” e com piadas sobre a cultura afro-americana foram encontradas nas lixeiras da internet por militantes devotados a testar a “pureza ideológica” de seus “companheiros”. Jimmy Kimmel é um grande apoiador do Black Lives Matter, Me Too, e outros movimentos pelos direitos das minorias e das mulheres. Podiam ter cavado mais fundo e se perguntado como Kimmel, que foi o mestre de cerimônias de The Man Show entre 1999 e 2004 conseguiu se tornar esse “defensor dos fracos e oprimidos”. O Show em questão era algo de deixar as feministas da terceira onda de cabelo em pé. É grosso e vulgar, mesmo para quem não compartilha do “pensamento” da horda identitária. Era do nível da banheira do Gugu para baixo e mostrava belas moças de seios grandes pulando em camas elásticas, para deleite de uma plateia de bêbados. Se você quer se tornar um cara politicamente correto, esse não é o melhor jeito de começar.

Kimmel, como o diretor James Cameron (com histórico de maus tratos a atores e atrizes no set de filmagem) e tantos outros em Hollywood, é um hipócrita que percebeu a onda identitária chegando e tentou se adiantar. Esse tipo de oportunista, que está se lixando para ideologia, desde que pegue o seu jabá, é o que mais tem por aí. Doze anos atrás, um famoso colunista de um influente site brasileiro esteve na Colômbia acompanhando as filmagens de uma produção internacional e fez comentários sobre as mulheres e o café colombiano, comentários que na época foram constrangedores e que hoje renderiam seu “cancelamento” debaixo de toneladas de e-mails e comentários nas redes sociais. Fui procurar o tal vídeo dele no youtube e consta como “indisponível”. Esse daí ao menos soube esconder bem seus rastros. A verdade é que todo aquele que sente uma vontade incontrolável de sinalizar virtude é porque não a possui. Quem se julga uma boa pessoa, moralmente superior e que acha que sabe o que é melhor para os outros, na verdade, NÃO é uma boa pessoa. Pense nisso antes de entrar no bonde. Resista à polícia do pensamento. Assista o que você quer, não o que querem que você assista. Leia o que você quer, não o que querem que você leia. Quem censura filmes, quem queima livros, quem acha que sabe o que é melhor para você, mais do que você mesmo, esse tipo de gente, são os verdadeiros fascistas. Guarde o que puder. Filmes, livros, HQs, qualquer coisa que tenha sido produzido antes dessa avalanche totalitária varrer o mundo. O index vem aí. Obras como as comédias de Mel Brooks ou os filmes de Paul Verhoeven, muito em breve, correm o risco de serem obliteradas. O mesmo vale para os livros de Hemingway. Proteja a cultura ocidental antes que esses bárbaros descerebrados a destruam. Resista ao plano deles. Resista ao futuro!

O mesmo site brasileiro que salvou um de seus articulistas de ter que “sentar no milho” diante de seu público, também anunciou, na semana que passou, a morte de Joel Schumacher, vítima de câncer, aos 80 anos de idade, como “a morte do diretor dos clássicos filmes do Batman dos anos 90”. Para o pobre estagiário que escreveu a matéria, história é tudo que aconteceu há mais de duas semanas. Para ele e sua geração, Schumacher será para sempre o cara que ficou famoso pelos bat-mamilos na armadura do homem-morcego e pelo close das bat-bundas em filmes como o mediano Batman Eternamente (1995) e o pavoroso Batman & Robin (1997). E isso é uma pena. Mas é sintomático. Para essa gurizada, Spielberg começou a fazer cinema na idade média, ou seja, nos anos 70. Hitchcock (quem?!) fez seus filmes mais famosos entre os nos 50 e 60, ou seja, durante a construção das pirâmides. E aquele sujeitinho estranho com o bigodinho (Chaplin, não Hitler, embora muitos sejam capazes de confundi-los) fazia cinema no paleolítico. Esse desinteresse e desprezo pelo passado são tudo de que a horda ignara precisa para destruir a cultura ocidental. Como os talibãs que destruíram as imagens de Buda (foto) com mais de dois mil anos, essa turba ameaça agora a própria identidade e memória de nossa civilização. Vale tudo para esses jacobinos ensandecidos. Numa das mais recentes depredações promovidas pelos “movimentos anti-tudo-que-é-do-mal-nesse-mundo”, a estátua do coronel Hans Christian Heg, um imigrante norugeguês, foi decapitada em Maddison, Wisconsin. Ele era membro do Exército da União e morreu na guerra civil americana combatendo...o sul escravagista! Imagine a horda vindo para cima da estátua: “Branco, e com esse nome, o cara só pode ser um nazistão!” tenho até medo do que farão com a estátua de Rocky Balboa em Filadélfia, que, fora Tom Hanks agonizando no filme de mesmo nome, é a única referência que bilhões de pessoas no mundo todo têm da cidade. Afinal, o “garanhão italiano” já bateu em três afro-americanos e um soviético...

Voltando a Schumacher, se ele não era um gênio da sétima arte, certamente estava muito longe de ser um Ed Wood da vida. Apesar de seus pavorosos Batmen, ele nos deu grandes filmes como Tempo de Matar, Um Dia de Fúria e o icônico O Primeiro ano do Resto de Nossas Vidas e, por isso, merece todo nosso respeito. Mais do que isso: ainda em vida, ele chegou a pedir perdão por Batman & Robin, filme no qual adotou, a pedido do estúdio, o tom farsesco da série de TV dos anos 60 e que em nada se alinhava com o desejo de um público leitor de HQs como O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, ou A Piada Mortal, de Allan Moore. Quem dera um monte de cineastas piores e mais pretensiosos fizesse o mesmo (Sim, Rian Johnson e JJ Abrams, essa é para vocês). Descanse em paz, Joel. Obrigado pelos bons filmes e pela humildade em reconhecer que pisou na bola. Acho que, se eu esperar que a Disney, Paramount/CBS ou BBC façam isso, morrerei sentado. E a você que me lê agora, cuide-se, obedeça às recomendações das autoridades de saúde e mantenha-se firme.

Vamos sair dessa, mais fortes e mais sábios, talvez o bastante para refrear a sanha suicida dos “inteligentinhos” que jamais precisaram ler ou estudar porque acham que já nasceram com as soluções para os problemas do mundo.

Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até outro domingo.


O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br
Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.